Digitus Index, 2013-2017
gesso, ferro, algodão, madeira, silicone, argila, led e vídeo
/ plaster, iron, cotton, wood, silicon, clay, led and videio
dimensões variáveis / variable dimensions

@ Novas Poéticas, Fórum de Ciência e Cultura UFRJ, Rio de Janeiro, 2017

Texto por Pollyana Quintella*
*(Brasil) Curadora e crítica de arte, mestra em Arte e Cultura Contemporânea pela UERJ. Colabora como colunista de artes visuais no jornal Agulha.

Digitus Index

1.
Repetir à exaustão talvez permita finalmente ver o que se repete. Repetir pode ser não gastar o gesto ou o olhar, mas reinaugurá-los. Olho muito tempo para o dedo, o suficiente para que ele vá se tornando uma coisa estranha, desprovida de banalidade, despida de uso e significado. Repetir para abstrair. Repetir para produzir a diferença. Fazer ver. E Bia não sabe porque reproduz tantos dedos. A cada reprodução, um movimento inaugural, um primeiro dedo, um primeiro gesto. O exercício de tentar se aproximar daquilo que não se pode saber: a origem.

2.
Bia: Fiquei querendo fazer essa reprodução de dedos infinitos.

Pollyana: Sabe que o dedo oposicional é o que permitiu que o ser humano desenvolvesse ferramentas. O curioso é que você está usando ferramentas para reproduzir dedos. É como ir de trás pra frente.

B: E na faculdade eu não usava ferramentas para esculpir, como espátula, desbastador, essas coisas. Eu sempre usei as mãos. E alguns professores, como o Nivaldo Carneiro, me incentivavam. Então o dedo e a unha eram a ferramenta. E com os dedos, eu queria fazer testes com fôrmas e materiais. O dedo é a coisa mais simples, o que fura, toca, aponta... Eu fazia bolinhas de barro e simplesmente furava com o meu dedo, isso era a fôrma.

P: É um primeiro movimento. É como experimentar a matéria pela primeira vez. Como quando criança a gente quer furar o bolo, sentir a textura nas mãos. O indicador é o “fura-bolo”.

B: E gosto de pensar o estoque como trabalho. Gavetas cheias de dedos, sobreposição, empilhamento, depósitos, pencas… eu não sabia bem o que daria aquilo, mas não parava de produzir. Eu estava numa lógica análoga à industrial, reproduzindo os mesmos movimentos. Uma vida furando barro, rolando pedra, mais um dia, mais um furo. Camus diz que é preciso imaginar Sísifo feliz.

3.
Suscetíveis de agarrar.

4.
Repetir, repetir - até ficar diferente. Repetir é um dom do estilo. (Manoel de Barros)

5.
O dedo dobrado deu origem ao gancho.